sexta-feira, 1 de outubro de 2021

NO CENTENÁRIO DE MARIA JUDITE DE CARVALHO Maria Afonso participou numa coletânea de homenagem à escritora

Maria Judite de Carvalho
 
Capa do livro

Maria Afonso, que participa na coletânea
com um poema

Maria Judite de Carvalho

Faria no passado dia 18 de setembro cem anos. Foi autora de novelas, crónicas, mas foi sobretudo nos contos que se destacou. Herdeira do existencialismo, nas suas obras a solidão é tratada como algo a que não se pode fugir. A solidão está nas cidades, nas pessoas e nos seus relacionamentos, como se fosse essência do Homem. A inquietação e a angústia povoam a sua obra e desassossega quem a lê. Mas, ao entrarmos em contacto com as personagens que ela nomeia desde logo, esse desassossego não magoa. Antes nos leva a reflectir.

Vencedora de alguns prémios em vida, manteve-se algo desconhecida do público.

Eu também não a conhecia. Tinha lido livros do marido, o Urbano Tavares Rodrigues do qual, curiosamente, possuo um com dedicatória. Um dia dei de caras com “Tanta Gente Mariana” e comprei-o porque a capa me atraiu. Parece ridículo, mas quem gosta de ler pode escolher livros da forma que bem entender. Assim passei a contactar com a MJC. Por arte do destino conheci através da rede social Instagram a neta, Inês Tavares Rodrigues Fraga. Fomos contactando e trocando mensagens. Um dia disse-me que tinha livros do avô para dar, se eu queria. Claro que a proposta era irrecusável e assim chegaram a minha casa os volumes I e II das Obras Completas.

Faltava algo de extrema urgência que era o contacto com a poesia de MJC. Foi quando conheci e me deliciei de espanto com “A Flor que Havia Na Água Parada”.

Tive uma vez mais o universo a meu favor ao ser convidada pela Lília Tavares, que administra a página “Quem Lê Sophia de Mello Breyner Andresen” (Facebook), para participar na Antologia de homenagem a MJC com um poema inédito o qual deveria integrar, como uma espécie de mote, alguns versos ou excertos de textos poéticos de MJC.  Pretende-se com esta iniciativa a divulgação da obra da escritora discreta, “mulher rara”, numa vontade de devolver o seu nome ao lugar digno que lhe é devido na história da nossa literatura. 

Nesta homenagem, aqui vos deixo o meu poema.

se eu pudesse mudar

aos meus olhos doentes

o estremecer de Setembro

a vertigem do charco

o decepar da voz

esse muro cinzento

 

vazar a memória dos barcos

diluir o mundo no azul

 

demudar a flor no verde da água

nesse rio quente

sem fundo nem fim

 

se eu pudesse deixar

de ver coisas ausentes

a lonjura da alma

o sinal proibido

o grito da nuvem

o arrastar do vento

o cheiro a partir a não estar aqui

 

voltar ao veio que descia sem pressa

ao poço escondido de vozes ausentes

ao arame rasgado das perguntas que fiz

olhar o meu corpo

onde nunca cheguei

de onde nunca parti

 

inventa-me assim nocturna e mansa

que morra um dia nas imagens da infância

e desperte o teu braço

nesse rio quente

ausente-presente

bem dentro de mim

 .

Maria Afonso (NR: Poetisa e professora da ESAAG)

 

 

 

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