quarta-feira, 27 de outubro de 2021

FÁBULAS EM OUTUBRO (5) As Fábulas de Monteiro Lobato



Escritor brasileiro, José Bento Monteiro Lobato nasceu a 18 de abril de 1882, na cidade de Taubaté, São Paulo (Brasil). Filho de proprietários rurais, teve a possibilidade de empreender estudos superiores. Em 1918 publicou o seu primeiro livro, uma compilação de contos que levava o título de Urupês. Entre as publicações da editora, figuravam sobretudo livros infantis, na sua maioria escritos pelo próprio Monteiro Lobato, e através dos quais passou à posteridade especialmente a série 'O Sítio do Picapau Amarelo'. Consagrou-se como romancista em 1926, ao publicar O Presidente Negro ou O Choque das Raças, obra polémica que considerava a possibilidade da ascensão de um candidato negro à Presidência dos Estados Unidos da América. Publicou a obra Fábulas, fazendo a adaptação das fábulas de Esopo e La Fontaine. Acabou por falecer, vítima de um derrame cerebral, a 4 de julho de 1948, na cidade de São Paulo.

 Transcreve-se a seguir uma fábula que parece bastante atual – como todas as outras – e que versa a questão da administração da justiça.

 O julgamento da ovelha

Um cachorro de maus bofes acusou uma pobre ovelhinha de lhe haver furtado um osso.

- Para que furtaria eu esse osso - alegou ela - se sou herbívora e um osso para mim vale tanto quanto um pedaço de pau?

- Não quero saber de nada. Você furtou o osso e vou já levá-la aos tribunais.

E assim fez. Queixou-se ao gavião-de-penacho e pediu-lhe justiça. O gavião reuniu o tribunal para julgar a causa, sorteando para isso doze urubus de papo vazio.

Comparece a ovelha. Fala. Defende-se de forma cabal, com razões muito irmãs das do cordeirinho que o lobo em tempos comeu.

Mas o júri, composto de carnívoros gulosos, não quis saber de nada e deu a sentença:

- Ou entrega o osso já e já, ou condenamos você à morte!

A ré tremeu: não havia escapatória!... Osso não tinha e não podia, portanto, restituir; mas tinha vida e ia entregá-la em pagamento do que não furtara.

Assim aconteceu. O cachorro sangrou-a, espostejou-a, reservou para si um quarto e dividiu o restante com os juízes famintos, a título de custas...

Moral da história: Fiar-se na justiça dos poderosos, que tolice!... A justiça deles não vacila em, partindo do branco, solenemente decretar que é preto.

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